Dívida x Capital
Na prática da consultoria é frequente nos depararmos com empresários em dúvida se recorrem a bancos, ou tentam atrair investidores para atender suas necessidades de capital.
Esta questão não tem uma resposta simples, diversos fatores podem fazer a escolha pender para um dos lados. Inicialmente iremos abordar o tema sob o ponto de vista estritamente financeiro, e depois teceremos algumas considerações de fatores externos que podem desempenhar um papel importante nesta escolha.
Como apresentamos no artigo publicado em janeiro de 2018, a empresa para gerar valor precisa remunerar o capital investido acima da remuneração oferecida por títulos de risco próximo de zero. Quanto acima é definido em função do risco do negócio, quanto maior o risco da empresa maior deve ser a remuneração acima dos títulos de risco quase zero, como por exemplo o Tesouro Direto.
Desta forma teríamos uma remuneração mínima para o capital provido por investidor, possivelmente acima dos juros cobrados pelos bancos. Caso a empresa não atinja esta rentabilidade haverá muita pressão por parte do investidor para que este nível seja atingido a curto prazo.
Existem dois tipos fundamentais de investidores, os investidores financeiros e os investidores estratégicos.
Os investidores financeiros veem a empresa como uma oportunidade de obter uma remuneração adequada para o seu investimento, ou seja, bastante acima da oferecida por títulos de baixo risco. Existem vários tipos de fundos, vamos salientar os dois que são os mais prevalentes no mercado.
Fundos do tipo “Private Equity”. Estes fundos investem recursos captados de investidores privados que tem prazo para ser devolvido a estes investidores. Estes fundos tem como objetivo investir em empresas, gerar valor a curto prazo e vender a participação para terceiros em um período que gira em torno de 3 a 4 anos com uma rentabilidade, não raro, de mais de 100% no período. O aspecto positivo destes fundos é a imposição de uma disciplina estratégica e operacional que leva a rápida geração de valor. O aspecto negativo sob a ótica do sócio é que muitas vezes são feitas fusões com outras empresas do setor, ou ainda novas, chamadas para aporte de capital que no frigir dos ovos diluem a participação dos sócios originais a níveis muito baixos. Neste cenário quando da venda da participação do fundo os sócios originais são compelidos a venderem junto a sua participação. Esta é um fundo para empreendedores que convivam bem com a ideia da venda de sua empresa.
Fundos de pensão, por outro lado, tem interesse em uma geração contínua de caixa para pagamento das pensões. Normalmente são refratários a grandes investimentos na empresa e focam a distribuição de dividendos. Estes fundos potencialmente podem ser sócios por um longo período de tempo.
Investidores estratégicos são aqueles que já estão no mesmo segmento ou que veem o investimento como uma complementação de portfólio de produtos. Este tipo de investidor também é de longo prazo e pode aportar tecnologia e ferramentas administrativas com um impacto normalmente positivo nas organizações. O risco que existe novamente é a possibilidade de novas chamadas de capital de forma a diluir os sócios originais ao ponto que estes perdem a possibilidade de contribuir com as decisões da empresa. Existem casos aonde a empresa, após sucessivas diluições de sócios, acaba sendo fundida com o investidor estratégico perdendo a sua identidade.
De modo geral empresas com uma geração de caixa saudável, que represente uma geração de valor para os acionistas, devem recorrer a bancos para suas necessidades de caixa evitando o risco de perderem a gestão da empresa.
Empresas em dificuldades financeiras podem pensar em captar recursos em fundos ou ainda investidores estratégicos, mas neste caso normalmente os investidores exigem uma fatia muito grande da empresa pois, assim como os bancos, conseguem entender a situação de alto risco em que a empresa se encontra. Neste caso a melhor saída é uma plano factível de recuperação da rentabilidade associado a uma grande disciplina operacional.