Qual Métrica Devo Usar Para Medir o Desempenho de um Negócio?
O gestor, muitas vezes, se sente confuso pela profusão de métricas e suas siglas, ficando em dúvida sobre qual usar para medir o desempenho do seu negócio ou ainda de um negócio que esteja interessado. Na verdade, cada métrica foi criada com um propósito diferente e o gestor deve escolher dentro desta cesta de opções quais métricas tem maior aderência as suas necessidades.
Vamos iniciar pelas métricas que medem o retorno sobre o capital investido pelos sócios da empresa, que podem ser os fundadores ou investidores. A métrica mais usual é o retorno sobre o capital (investido) ROC ou ROE (return on equity). Este índice mede o retorno sobre o capital do acionista e, portanto, revela se o investimento foi ou não capaz de gerar valor. Neste índice se divide o lucro líquido pelo capital investido.
∑ (lucro líquido) / (capital investido) = ROC período (%)
O período considerado na apuração deste índice é muito importante para entender o que ele significa. Vamos supor que temos uma empresa em seu quinto ano de operação, e que seu início tenha sido difícil, mas que com o passar do tempo venha gerando lucros cada vez maiores. O índice calculado, considerando o resultado do quinto ano, vai ser muito melhor que no primeiro ano, mas qual é o retorno para o acionista de fato: o do primeiro ou o do quinto ano?
O retorno do quinto ano apresenta um retrato de como está o retorno naquele momento, e portanto, pode-se esperar que nos anos futuros, se a gestão continuar efetiva, o retorno esteja pelo menos neste nível, mas o fato é: qual seria o retorno real no período?
Supondo que no nosso exemplo a empresa tenha recebido um investimento de $1 milhão, e tenha um lucro líquido total no período de $200 mil, dos quais $100mil foram no último ano, teríamos:
Retorno no último ano 100.000/1.000.000x100 = 0,10 ou seja 10%
Considerando que no Brasil podemos, no momento, assumir 8% ao ano como taxa de retorno de um investimento com risco quase zero, este investimento no quinto ano estaria trazendo ao investidor um retorno dois pontos percentuais acima desse patamar. Se o investidor considerar que estes dois pontos percentuais remuneram adequadamente o risco do negócio, este teria sido um bom investimento neste ano em particular.
Considerando todos os cinco anos teríamos o retorno sobre o capital de 200.000/1.000.000 = 0,2 ou seja 20% no período de cinco anos.
Para calcularmos o retorno anual teríamos:
(ROCP+1)(1/n) - 1 = ROC aonde n = ao número de anos, portanto no nosso exemplo (1+0,2)(1/5) - 1 = 0,037 ou seja 3,7% ao ano, ficando abaixo do rendimento de títulos com risco quase zero, não apresentando uma remuneração adequada sobre o capital investido no período.
Este poderia ser um exemplo típico aonde o investidor assumiu um risco e com o tempo, e uma gestão eficaz, o empreendimento pode gerar resultados melhores ano após ano, até que remunere adequadamente o seu capital.
O exemplo ilustra claramente porque países aonde títulos públicos de risco quase zero apresentam rendimentos muito altos, limitam o crescimento econômico, pois exigem retornos excessivamente altos para o capital investido. O investidor informado vai sempre comparar a possibilidade de investir em um negócio assumindo o seu risco com a possibilidade de investir sem risco nestes títulos.
Outra métrica usual é o Retorno sobre Ativos ROA ou Return on Assets, Esta métrica é calculada da mesma forma que o ROC, substituindo-se o capital investido pelo valor dos ativos da empresa (sem entrar em particularidades contábeis a grosso modo, podemos considerar como ativos capital investido mais dívidas da empresa). O retorno sobre ativos mede o valor gerado pelos ativos da empresa.
No nosso exemplo podemos supor que a nossa empresa no quinto ano tenha um empréstimo de $500.000, portanto, seus ativos serão $500.000 + $1.000.000 = $1.500.000
O retorno sobre ativos no quinto ano pode ser calculado como
ROA = 100.000/1.500.000 = 0,066 ou seja 6,6%
Este parâmetro mostra que a empresa está gerando um retorno total sobre os ativos de 6,6%, ou seja, depois de pagar os juros sobre os empréstimos está remunerando os ativos abaixo do título de risco quase zero, embora esteja remunerando o acionista acima deste patamar.
Podemos imaginar que o empréstimo tenha sido tomado para investir em um novo produto, neste caso no quinto ano este investimento esta diluindo a rentabilidade e se espera que nos anos seguintes ele possa gerar resultados para aumentar a rentabilidade dos ativos totais.
Esta é uma medida pontual, pode-se também analisar o retorno sob a média (aritmética ou ponderada) dos ativos em um período. Considerando que no nosso exemplo o empréstimo tenha sido tomado no quinto ano, a média aritmética dos ativos seria (ativos no ano 1 + ativos no ano 5 )/2, ou seja
ROA = 200.000/((1.000.000+1.500.000)/2) = 0,16 ou seja 16% em cinco anos
Que resulta em um retorno anual de 3,0% sobre todos os ativos.
Este retorno é adequado? Podemos responder esta pergunta com uma análise de conjuntura ou uma análise estrutural.
Dentro das empresas deste setor esta rentabilidade está acima ou abaixo da média? Caso esteja acima da média podemos assumir que a empresa está se saindo melhor que a média de seus concorrentes e, portanto, está sendo bem gerida, mas isso não garante que o setor em si esteja gerando retornos adequados.
Em uma análise estrutural teríamos que verificar se a geração de caixa á suficiente para pagar o empréstimo ou se este deverá ser renovado no seu vencimento, o que pode ou não ser aceito pelo agente financeiro colocando a empresa em risco.
Através de índices é possível avaliar a liquidez da empresa para termos uma ideia se esta poderá honrar os seus compromissos com o agente financeiro, mas isto foge ao tema deste artigo.
Como poderia ser esperado uma vez que houve uma diluição do retorno no quinto ano este comportamento também se verifica quando analisamos o período.
Outra métrica para medição do desempenho da empresa é o seu Valor Presente Líquido (Net Present Value - NPV). Esta métrica pode adotar o período de vida da empresa, utilizando dados históricos reais do desempenho ou também períodos mais longos aonde projeções de resultado futuro são aplicados. No caso de utilizarmos projeções, a validade da análise está atrelada na credibilidade do gestor que em última análise referenda a projeções.
Para esta análise precisamos construir uma série de fluxos de caixa da empresa para o período considerado. Gostaria de enfatizar que esta análise não utiliza o lucro líquido, mas o caixa gerado.
Outro parâmetro necessário é a taxa de desconto, ou seja, qual taxa será utilizada para trazer os fluxos projetados de caixa para valor presente. No nosso exemplo podemos imaginar que o investidor se satisfaça com um retorno dois pontos percentuais acima da taxa de investimento de risco quase zero ou seja 8% + 2% = 10% e que portanto será adotada como taxa de desconto para fluxo futuro.
Podemos assumir no nosso exemplo que seu fluxo de caixa no período, excluindo a capitalização, tenha sido:
O valor deste fluxo de caixa, descontado no período, será calculado assumindo a taxa de desconto de 10%, ou seja, o fluxo de caixa do segundo ano valeria 10% a menos quando trazido para o início do período e assim por diante. Desta forma teríamos um VPL de 179.368 no período.
Considerando o investimento inicial de 1 milhão teríamos
-1.000.000 + 179.378 = -820.632
ou seja a empresa ainda não teria retornado o investimento inicial, pois seu valor presente líquido é negativo.
Assumindo a projeção abaixo para o fluxo de caixa futuro
teríamos, utilizando a mesma taxa de desconto, um VPL para 10 anos de 1.063.261.
Ou seja, a empresa poderia em dez anos atender a expectativa de rentabilidade dos investidores e ainda sobraria pouco mais de R$63.000,00. Como a sobra é muito pequena a gestão precisaria ser muito eficiente e eficaz para que tudo dê certo e o cenário se concretize.
A pergunta que os investidores se fariam é se vale a pena continuar neste risco ou seria melhor alterar o portfólio de investimento caso o mercado ofereça melhores alternativas, e ainda se é possível construir uma rota de saída deste investimento que não destrua valor.
Fica claro então a preferência dos investidores por alternativas que possam apresentar uma rota de saída clara desde o primeiro momento.

